P. Mario Bonatti
Formado em Letras – 1962
Assessor Salesiano

Foi no dia 18 de outubro de 1968 eu apresentava, com solenidade, na Faculdade Salesiana, em uma cidade que nunca tinha visto a defesa de uma tese de doutorado, minha pesquisa de três anos comparando o dialeto trentino da Itália com o de Santa Catarina, no Brasil.

Eu podia mostrar concretamente porque as línguas mudam sempre que passam de um ambiente cultural para outro como pude documentar que havia acontecido com o dialeto transportado da Europa para o Brasil, após 90 anos de separação, vivendo lá e cá em duas pequenas comunidades rurais, buscando saber o que havia mudado e o que havia permanecido idêntico. É preciso dizer que o dialeto mudou aqui no Brasil e na Itália também. As línguas mudam continuamente, embora no novo ambiente tenha evoluído mais, como pude verificar.

O trabalho me fez entender mais claramente que isto aconteceu também com o português, o espanhol e o inglês, quando transferidos para as Américas. Deveriam necessariamente mudar, sobretudo em seu vocabulário. Ainda hoje Portugal, Espanha e Inglaterra “acham” que a língua falada fora do país onde eles moram, é deturpada, para não dizer “errada”… mostram e deveriam necessariamente ter mudado em parte.

Grande foi o impacto na cidade de Lorena e nos meios linguísticos do Brasil, pois defendia-se em Lorena, com professores da Universidade de São Paulo e da PUC-SP, a primeira tese de doutorado em Linguística no Brasil. Durante seis horas de arguição, membros da banca e o candidato discutiam, das 15 às 21 horas, com meia hora de arguição para cada professor e meia hora para as respostas do doutorando, discutindo o material apresentado na tese. Todos os presentes admiraram-se da minha tranquilidade que estava ligada à garantia do orientador, o Dr. Aryon D. Rodrigues que me havia dito: ninguém vai derrubar seus argumentos porque estão apoiados em pesquisa com levantamentos dos dados efetuados no Tirol e no Brasil. Só você tem este material.

Transformada em livro, a tese foi proposta para ser impressa no Instituto de Estudos brasileiros da USP, mas a Biblioteca Fritz Müller de Blumenau publicou o livro no centenário da imigração italiana em Santa Catarina em 1975. Foi por causa desta tese e do título que trouxe que fui convidado para lecionar linguística na Universidade de Coimbra, na Universidade Federal de Santa Catarina e na Universidade de Taubaté SP, além de participação como convidado, no Brasil e no exterior, em congressos linguísticos.  Em 1969 promovi em Lorena um seminário de Linguística com professores americanos e brasileiros.

Os tiroleses, na Itália, ficaram sabendo que havia descendentes seus falando o mesmo dialeto no Brasil e que alguém o havia estudado. Traduziram o livro para o italiano. Em 1969 fui convidado a participar no I Convegno dei Dialetti Trentini, em Trento na Itália. Lá participei da fundação da Societá di Studi Trentini. Durante o congresso no período da manhã e à noite aconteciam as palestras. À tarde pude conhecer cidades, lugares, montanhas, museus e centros culturais da região. As apresentações da noite eram distribuídas por grupos representantes de alguns vales onde havia variações do dialeto trentino. Ninguém poderia imaginar que num dialeto que não tinha na região nem um milhão de falantes, havia tantas variações, mas todos se entendiam. O isolamento nos vales e altas montanhas do lugar podem explicar as diferenças. Eu apresentava mais uma variação, a do dialeto trentino falado em Rio dos Cedros, no Brasil.

Um amigo americano disse-me que o livro que publicou a tese está na biblioteca de Washington classificado com cinco estrelas.