Entrevista com Daniel Munduruku, ex-aluno do UNISAL

Publicado em: 13/05/2021

“Hoje sou um ser humano consciente de meu papel transformador na sociedade graças à formação humana que recebi com os salesianos”.

Daniel Munduruku é filósofo, licenciado em História e Psicologia pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo – UNISAL, na Unidade Lorena, em 1989.

Natural do Estado do Pará, Daniel, hoje Doutor em Educação e escritor, com 54 livros abordando a cultura indígena, iniciou sua formação acadêmica no Seminário Salesiano em Manaus.

Nesta entrevista para o site do UNISAL, nosso ex-aluno salesiano fala sobre suas aspirações na juventude, sobre a relevância da educação salesiana na sua formação cidadã, sobre o documentário “Falas da Terra”, e da importância do educador para a sociedade.

UNISAL:

Quando cursou suas Graduações no UNISAL, quais eram suas aspirações como profissional?

Daniel:

Sempre desejei ser professor. Mas iniciei minha formação acadêmica no seminário salesiano em Manaus. Ou seja, meu ensejo inicial era ser padre salesiano. Na medida em que o tempo foi passando fui percebendo que minha vocação era para ser professor mesmo. Então, me retirei do seminário e passei a me preparar mais decididamente para o magistério, profissão que exerci por 15 anos consecutivos, até me deparar com a literatura e me descobrir escritor.

UNISAL:

Você considera que ter sido aluno salesiano, recebendo conhecimento teórico, prático e humanizado, colaborou para conquistas na carreira e na vida?

Daniel:

Acredito que hoje sou um ser humano consciente de meu papel transformador na sociedade graças à formação humana que recebi com os salesianos.

UNISAL:

O senhor veio do Pará para São Paulo, na cidade de Lorena. Essa escolha de localização, foi algo pensado ou foi uma oportunidade?

Daniel:

Quando deixei o seminário já havia completado meu curso superior em filosofia. Como era um curso que ainda estava se iniciando em Manaus, ainda não estava reconhecido pelo MEC. Tive, portanto, que fazer o reconhecimento do diploma. Foi este o motivo que me trouxe para Lorena, onde organizei toda minha vida profissional e pessoal, constitui família e lecionei após regressar da capital de São Paulo. Lá fiz mestrado e doutorado na USP.

UNISAL:

Ao escolher a Graduação, porque considerou o UNISAL?

Daniel:

Acredito que o fato de ter estudado toda minha vida em escolas salesianas acabei optando pelo UNISAL como caminho natural. Ter sido ex-aluno já me dava garantias da qualidade do ensino e a capacidade científica da instituição.

UNISAL:

Quais são os destaques do tempo de estudo no UNISAL que poderia nos contar?

Daniel:

Estudei no UNISAL, Unidade Lorena, no final dos anos 1980. Foi uma década muito cheia de mudanças políticas e a instituição nunca se privou em discutir temas atuais e a promover debates e ações que nos comprometiam a lutar por mudanças sociais. A minha melhor lembrança é a de participar de grupos pastorais comprometidos com os problemas reais.

UNISAL:

Nas suas palavras “liberdade é ter a possibilidade de ser quem eu sou”. De que maneira, na sua opinião, a Educação tem esse papel na vida dos alunos?

Daniel:

Não existe possibilidade de sermos livres sem uma educação libertadora. Passamos muito tempo na escola e, por isso, ela precisa ser uma instituição conectada ao mundo em que vivemos. Sobretudo, ela deve nos formar para a liberdade. Sem liberdade, ou seja, sem consciência crítica, ficamos presos a um sistema que quer nos usar como massa de manobra para sua manutenção. Só é possível ser quem somos quando temos liberdade de escolher o que queremos fazer de nossa vida. Neste sentido, sou muito contra os cursos profissionalizantes porque eles nos engessam e nos obrigam a ser algo que nem sempre queremos ser. É preciso ter opções para poder escolher e, a escolha, é prerrogativa de educação para a liberdade.

UNISAL:

Como foi para o senhor participar do documentário “Falas da Terra”? Gostaria de saber sua opinião, em seu lugar de fala. Acredita que surtirá efeito na sociedade?

Daniel:

Estou atuando na sociedade há 30 anos como educador e escritor. Ser um educador é trabalhar em silêncio; é plantar e correr o risco de não ver a árvore crescer; é sonhar com mundo possíveis, mas crer no impossível. O educador é um ser sem futuro. Felizmente, algumas vezes o trabalho da gente é percebido, valorizado e reconhecido. Tenho tido esta felicidade. Estou vendo a árvore crescer.

Participar do documentário foi um desses reconhecimentos que, certamente, trará seus benefícios porque gera visibilidade e faz nossa mensagem chegar mais longe. Mas não me vanglorio por isso, porque sei que um educador não pode ficar preso ao reconhecimento, pois, a realidade é muito mais dura do que pensa nossa vã filosofia.

UNISAL:

Como podemos quebrar antigos preconceitos e paradigmas em relação à população indígena?

Daniel:

Ler autores indígenas é um bom começo. A leitura abre nossa mente para uma compreensão maior dos saberes que outros grupos e povos detém. Ao ler os autores indígenas é possível vermos o mundo com os olhos deles e, assim, perceber conhecimentos que nunca nos demos conta. Quando descobrimos que somos ignorantes – pessoa que ignora – levamos o susto do conhecimento. Neste momento, nossos preconceitos cedem lugar ao saber do outro e alimentamos em nós a tolerância, o respeito e a admiração pela história das outras gentes.

UNISAL:

Como abordar o “Dia do Índio” sem ser preconceituoso, mas, sim, gerar conscientização?

Daniel:

Não abordar o dia 19 de abril como dia do índio é um bom começo. Precisamos desconstruir as imagens que foram sendo introjetadas dentro de nós pela escola. E quem pode fazer isso melhor que ninguém é a própria escola. Trazer a diversidade indígena; ler autores indígenas; ouvir falas de indígenas; assistir documentários realizados pelos próprios indígenas, é dar palco para que eles sejam protagonistas. Isso nos ajudaria a arrancarmos de nós o preconceito de que o indígena é incapaz.

Temos que lembrar, o tempo todo, que as populações indígenas são nossas contemporâneas. Isso quer dizer que vivem no mesmo espaço, sofrem as mesmas dores, têm problemas semelhantes aos nossos. Compreender isso é dar um importante passo para desenvolvermos em nós valores essenciais como a capacidade de escuta e o respeito pela existência do outro. Simples assim.

Para saber mais sobre os projetos de Daniel Munduruku e acompanhar suas lutas no movimento indígena brasileiro, acesse www.danielmunduruku.blogspot.com.