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27 maio

O contador de histórias

.marilia

Era uma vez (é sempre assim que começam as histórias) um contador de histórias.

Ele gostava de se sentar sempre no mesmo lugar e esse lugar – pasmem ou não – era um banquinho improvisado em um caixote velho de maçãs – manzanas argentinas – com seu velho rótulo estampado do lado de fora.

Não me lembro exatamente de seu nome, mas todos ali o conheciam por Zé. 

Era magro, alto e ao se sentar, cruzava suas pernas para somente descruzá-las após um gole de café, passado em coador de pano, sempre forte, encorpado, bem quente e sem nenhum açúcar.

Permitam-me explicar-lhes. O Zé tinha um certo ritual para contar suas histórias. Era assim…

Primeiro, as histórias só poderiam ser contadas ao cair da tarde, pois assim, segundo o próprio, seriam abençoadas pela noite e banhadas pelo café! Pois é, não estranhem. O Zé era assim mesmo, criativo. Aliás, um autêntico contador de histórias.

Assim sendo, o Zé chegava no boteco do Pereira, puxava seu caixote para a calçada, encostava-se na pilastra principal do edifício que sustentava o Raimundu’s (este era o nome do boteco) e fazia seu pedido costumeiro ao garçom.

– Ô menino, me vê um copo de café bem forte, sem açúcar e um pão com manteiga….bastante manteiga!

Quando o pedido chegava, o Zé tinha um certo ritual. Jogava na calçada, uma golada do café para São Benedito, pigarreava com força e provava o pão com manteiga. Aí sim, dava seu primeiro gole na bebida, se virava para que estivesse mais próximo e disparava:

– Escuta, eu já te contei quando estive em Goiás, no garimpo alto? Pois é, o Cruzeiro do Sul, aquela pedra monumental, foi encontrada a dez metros de onde eu estava. Pois é, pois é…

E lá ia o Zé, com sua narrativa fácil, prosa gostosa e solta.

– Uma noite, quando eu era motorista de caminhão, estacionei o “bruto” no acostamento “pra podê toma” um gole de café e quando eu olhei pro céu, vi uma coisa que ninguém explica. Uma roda de fogo que às vezes, ficava verde, outras, azul. Aquilo ficou ali por uns vinte minutos. Depois sumiu… apagou. É… pois é, pois é…

As histórias eram as mais mirabolantes. Ele tinha histórias para tudo. E sempre se colocava como protagonista de todas elas. O Zé, sem dúvida, era uma grande figura.

O leitor por certo deve ter estranhado eu ter dito “era”. O Zé não morreu, fiquem tranquilos. Nem sumiu…

O Zé vive e revive em cada personagem deste vasto mundo, mas que, pelo capricho da vida, tece suas particularidades nos contistas anônimos que fazem a festa dos ouvidos de outros, também anônimos.

O Zé era, é e será sempre um contador de histórias! Pouco importa se o fato por ele narrado seja verdadeiro ou não. Tampouco importa se tinha sido ele o idealizador de cada uma daquelas histórias ou vivido, de fato, cada uma delas.

O importante é sabermos que o Zé contribui enormemente para o resgate de nossa oralidade, tantas vezes esquecida.

O Zé também incita nossa imaginação sem que tenhamos para isso, que recorrer a efeitos visuais de um cinema empobrecido em mensagens essenciais.

Ora, o Zé é um contador de histórias!

Agora leitor, caso você me pergunte se o Zé descrito aqui por mim, para entreter a sua leitura, realmente existiu, vou-lhe responder que esta… esta é uma outra história…!

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