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9 maio

Lado a lado

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marilia

Durante muito tempo, a guerra entre gangues de uma determinada cidade brasileira vitimou centenas de jovens que, certamente, teriam tido outro destino, não fossem as disputas territoriais para vendas de drogas e armas, além é claro, de prostituição.

Contudo, esta história tem um final diferente.

Certa vez, dois elementos de gangues rivais acabaram caídos e feridos em um barranco, por ocasião de uma batida policial. 
Ali, estendidos e machucados, quando se deram conta de que estava na mesma situação e de que pertenciam a “grupos” rivais, a primeira tentativa de ambos foi agredirem-se mutuamente. Porém, não estavam em situação física que lhes permitissem tal atitude.

Um deles, “Jacão”, havia luxado o ombro e cortado a cabeça. O outro, “Cheirinho”, torcido o tornozelo e fraturado uma costela.

Logo que se perceberam, o mal-estar foi geral. Depois, como não tivessem perspectivas de agressão mútua e nem de fuga, pois a polícia continuava ali, pelos arredores, resolveram ficar em silêncio, apenas olhando-se.

O que será que pensavam enquanto se olhavam? Será que arquitetavam planos mirabolantes para tentarem aniquilar-se? Ou simplesmente estavam ali, esperando o tempo passar?

O fato é que algo surpreendente aconteceu.

Transcorridos aproximadamente trinta minutos da queda de ambos naquele lugar, e notando, ambos, que não conseguiriam sair dali sem ajuda, pois estavam muito machucados, Jacão resolveu romper o silêncio e falar:

“Aí, meu irmão! Que fria a gente se meteu !”

“Pode crer! Dessa a gente não sai mais”, comentou Cheirinho.

E assim, apesar das diferenças para o domínio de seus respectivos territórios, iniciaram uma conversa que foi além das disputas cotidianas. Falaram sobre si próprios. Não conversaram sobre a rivalidade entre seus domínios, mas falaram de seus sonhos.

Assim ficaram, até que a correria policial tivesse acabado.

Quando a fome chegou com o cair da tarde, Cheirinho tirou do bolso um pedaço de chocolate. Deu uma mordida e percebendo o olhar de seu “colega”, ofereceu:

“Pega aí! Dá um trato, mano!”

“Valeu!”, consentiu o outro, faminto.

Quando a noite chegou e sentindo-se mais seguros, resolveram sair dali. Mas, para conseguirem isso, um precisou ajudar o outro.
Cheirinho, que havia torcido o tornozelo e fraturado uma das costelas empurrou Jacão, que depois o puxou para cima, com a força do braço e do ombro que estavam bons.

Uma vez libertos, ambos se olharam e de repente, num lampejo, perceberam o quão iguais eram. Sentiram que estavam mais irmanados pelas dificuldades da vida do que pelos ideais violentos e sem propósito de suas respectivas gangues. Descobriram que a guerra, qualquer guerra, realmente, não fazia sentido.

Dessa forma, despediram-se com um breve aceno e se foram. Mas, foram embora com algo diferente no coração. Certamente, com o reconhecimento de que a vida é muito curta para ser desperdiçada com territorialismos e animosidades.

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