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27 jun

Caridade

.marilia

Um dia desses, eu passava por uma grande avenida, e ao parar em um de seus semáforos, fui abordada por um garoto de aproximadamente doze anos com um pequeno rodinho e um balde com água. A água do balde estava bastante suja e o rodinho quase não tinha a borracha, que permitia o enxugamento da superfície molhada.

Ao parar em minha janela, o garoto perguntou se poderia lavar o pára-brisa do carro.

Respondi-lhe que não, que eu tinha lavado o carro no dia anterior e além do mais, eu me encontrava sem dinheiro trocado para dar-lhe como pagamento pelo seu trabalho.

O menino, então, olhou-me de forma decepcionada, mas não rancorosa. Pude perceber pelos seus olhinhos, que na verdade, o que ele almejava ali, antes mesmo de receber pelo trabalho executado, era o reconhecimento de sua função, o fato de que eu ali, com o meu carro, pudesse perceber o quão útil ele era.

Sentir tudo isso, notar aquela situação e nada fazer, era ter uma atitude de Pôncio Pilatos em tempos modernos, onde “lavar as mãos” significa fechar os olhos para o muito que se pode fazer com tão pouco.

E foi assim que eu não lavei as minhas mãos e não fechei os meus olhos, e aquele pouco que pôde ser feito, transformou-se em uma alegria ímpar aos olhos de um garoto anônimo, como tantos outros que habitam solitariamente o coração de pedra das grandes metrópoles.

Então, voltando àquele dia, após ter dito ao garoto, que não precisava executar o trabalho e tendo tido eu um lampejo de discernimento, voltei-me para ele e rapidamente, antes que o semáforo abrisse, e a corrida desenfreada recomeçasse, chamei-o num canto e disse:

– Olha, realmente o pára-brisa está limpo, mas se você puder dar uma limpadinha rápida no vidro traseiro, eu agradeceria.

Ele, mais do que depressa, correu para trás e “caprichadamente”, mais sujou do que limpou o vidro de trás, entretanto, fez aquilo tudo com muito esmero.

Quando terminou, voltou correndo à minha janela e disse:

– Pronto, tia.

Eu então, dei a ele algo que certamente possa ter valido muito mais do que algumas moedas.

– Puxa! Ficou muito legal o seu serviço, parabéns! – E fiz com o dedo polegar um sinal de positivo. Completei tudo dando-lhe uma piscadela, um grande sorriso e uma barra de chocolates que havia no porta-luvas.

Os olhos daquele garoto brilharam, e ele retribuiu-me o sorriso.

Eu havia feito minha parte. Havia dado àquela criatura, valorização, incentivo e reconhecimento. Na maior parte das vezes, é apenas disso que precisamos para seguir em frente.

Resta-me apenas uma questão: quem deu o que para quem?

A resposta, creio eu, é de que ambos, eu e o garoto, tenhamos nos presenteado, com uma rápida acolhida nos dias de hoje, que é um sorriso legítimo e sincero vindo do fundo da alma.

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