Ana Paula-unisal

 Ana Paula Carvalho de Oliveira
Formada em Psicologia em 2014

Era fevereiro de um ano que começava com as portas abertas para uma escolha. Essa escolha era assinada por mim. Sendo assim, existia nela um peso sensível de responsabilidade e de liberdade, que pousavam também sobre as pontas dos meus dedos.

Era o início de um ano em que os intervalos não eram mais recreios e, caso eu quisesse, poderiam ser mais longos do que o determinado. Eu andava pelo pátio sob uma noite estrelada. Os sentimentos misturavam-se e multiplicavam-se. Era medo, angústia e insegurança que aumentavam em progressão aritmética, enquanto eu caminhava. Contudo, existia uma vontade. Ah, a vontade de “não-sei-o-quê” era maior que qualquer sentimento que pudesse travar o meu caminhar. O que eu ali esperava?

Era tanta gente, eu me sentia tão distante daquelas pessoas que pareciam saber tanto sobre onde estavam e o que queriam.  Pessoas, aparentemente, tão confortáveis em ser o que eram. Eu apenas queria encontrar rostos conhecidos e estava atrás de rostos novos que quisessem me encontrar. Aquele pátio parecia tão grande, tantos bancos, tanta gente, tantas tribos ali se reuniam.

Eu parecia tão só, sentei-me num banco próximo à estátua de Dom Bosco, numa posição em que eu pudesse observá-la. Num minuto de descanso do mundo que me cercava, estabeleci um diálogo com aquela estátua que, anos mais tarde, fui entender o quanto significava. Disse a ela: “Hoje, sou o seu palco, eu te observo. Mas, caro Dom Bosco, imagine só de quantas histórias não irá o senhor ser meu espectador?”. Por um instante, fechei meus olhos e me passaram todas as cenas que ali eu poderia (iria) viver.

Passados mais de sete anos, posso afirmar: não vivi ali nem metade de todas as incontáveis histórias que se apossaram de mim em apenas segundos. Não encontrei um amor, não vivi uma grande decepção, não tive brigas, nem mesmo recebi prêmios naquele local. Na realidade, o que eu vivenciei foram as pequenas amenidades cotidianas: as risadas com os amigos, os famosos “MTPs” (Momentos de Tensão Pré-prova), o bate-papo com os professores, o sorriso dos funcionários etc. Amenidades tais que vistas de fora não serviriam de enredo para um conto, mas de dentro, têm todos os ingredientes para formar um romance.

Se eu retornasse até aquela estátua e pudéssemos, novamente, conversar. Talvez, ela me dissesse o quanto eu caminhei e o quanto ela assistiu a essa minha travessia. Como as minhas aspirações mudaram e se fortaleceram, apesar do medo, da angústia e das inseguranças continuarem a se multiplicar. Como, em muitos momentos dessa caminhada, eu me esqueci de observar o céu estrelado, pois outras preocupações menos importantes ocupavam a mente. E, ainda, como eu me esqueci várias vezes de me olhar e falhei, mas, também, de um jeito ou de outro, pude remendar as falhas e fazer coisas novas. As escolhas já não pesam tanto, mas cada dia mais, o conceito de liberdade passou a se confundir com o de responsabilidade e, assim, dentre outras coisas, os intervalos foram ficando mais curtos com o passar dos anos.

Talvez ela, a estátua, não se lembre mais de mim, pois quantas milhares de histórias já não presenciou?

Possivelmente o meu rosto serviu de pano de fundo para vários outros estreantes nesse palco (pátio) da universidade e a minha história mescle parte da história de muitos outros estudantes que ali tiveram a honra de iniciar sua jornada. Por trás de cada rosto sem nome a caminhar pelo pátio do UNISAL e a ser observado pela estátua de Dom Bosco, há vidas sendo moldadas e a se cruzarem, bem como vínculos sendo feitos e desfeitos no ritmo incansável da rotação terrestre.

A minha poderia ser apenas mais uma história no meio de tantas outras, no meio de tanta gente vivendo suas amenidades e, entre uma amenidade e outra, construindo suas memórias. Acho que é isso. Se for para definir, mesmo com o medo de limitar, o pátio da faculdade foi a paisagem de algumas das minhas memórias e das de muitos outros rostos que eu já sei e que eu ainda não sei os nomes.

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Esta é “A vida nos pátios do UNISAL”…

Porque o que dá sentido à vida não pode se perder no tempo!