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Por Diego Amaro

Não tive a oportunidade de conviver com este grande intelectual do Vale do Paraíba, mas sua ação era tão presente que é difícil imaginar que alguém não tenha pelo menos ouvido falar desse personagem ilustre e morador do Vale. Líder de uma geração de intelectuais, promotor de grandes feitos, um agitador cultural, um guardião da memória regional, um príncipe – mas acima de tudo, professor nato. Querido por seus alunos, tinha uma oratória incrível; raros eram aqueles que não estavam prontos a ouví-lo.

Quem o conheceu diz que o professor era um lord, uma pessoa de atitudes firmes e de uma educação aristocrática. O respeito ao outro e ao meio ambiente era-lhe algo tão próprio que provocava nos outros a vontade de trilhar o caminho por ele percorrido.

Ele costumava dizer “O Vale do Paraíba é meus país”. E de fato ele fez de sua região seu país. Sem dúvidas um nobre, principalmente nas posturas que promoveram e elevaram o Vale.

A história do Professor José Luiz Pasin é rica em fatos que se misturam com a história recente da nossa região, já que foi promotor de muitas mudanças importantes na preservação arquitetônica, ambiental, cultural e histórica do Vale do Paraíba.

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O professor Pasin se formou em História e Geografia em 1962, na  Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena (hoje com o nome UNISAL). Desde o início deste processo mostrou-se um cidadão preocupado e contestador. Tal atitude nesta época era um perigo, pois o professor se envolvia em discussões sobre diversos problemas sociais brasileiros. Com o passar dos anos e a instalação de um novo regime de governo, essa postura acaba provocando sua prisão em 1970, por realizar atividades em prol da cultura Afro-brasileira. Uma das provas do ativismo deste mestre.

Na década de 1970 o professor, que era dono de um idealismo apaixonado, apoiou com outros apaixonados pelo Vale as instituições de utilidade pública que, de maneira intensa, promoveram debates, palestras, manifestos e outras ações a favor de causas relevantes à sociedade brasileira. Dentre todas as instituições fundadas em diferentes cidades do Vale do Paraíba, gostaria de destacar o IEV – Instituto de Estudos Valeparaibanos e o Museu Histórico Pedagógico e Arquivo Frei Galvão.

Em um tempo em que as pessoas não estavam tão preocupadas com a preservação, e no qual o pensamento ainda era pautado no desenvolvimento e não pela sustentabilidade, este mestre fez sua parte com tanta intensidade que fundou uma das primeiras reservas ambientais privadas do Brasil. A fazenda Boa Vista, de sua propriedade e localizada no município de Roseira-SP, tornou-se uma eferência. Hoje, no espaço recuperado por ele, funciona uma instituição de ensino superior, que continua a promover o estudo dessas áreas ambientais. No local, o professor Pasin também realizou um resgate histórico, preservando a senzala da fazenda.

Um aspecto da fala do Professor Pasin, que podemos analisar para termos uma ideia de suas crenças, é uma reportagem do jornal “A Semana” publicada em 1987, na qual ele descreve a si mesmo:

“Eu vejo o José Luiz Pasin como uma pessoa sensível, uma pessoa de formação humanista, aberta aos valores universais, um tanto preocupado com uma certa ordem nas coisas. Mas, sobretudo, o José Luiz Pasin é uma pessoa universal que está aberta às mudanças, aberto às novas ideias e acima de tudo uma pessoa preocupada com se identificar com a natureza. Eu cada vez mais procuro pautar a minha vida pelos valores da natureza. Eu vejo que a natureza é um grande laboratório, onde eu posso repensar meus valores.”

José Luiz Pasin provocou e agiu, sem medo do que as pessoas pensariam ou questionariam. Defendeu dia a dia aquilo em que acreditava e, conforme o tempo passava, provou que o caminho era possível. Foi um cidadão incansável, que acreditava em um Vale do Paraíba melhor: uma região sem fronteiras, que rompesse com costumes antiquados que impossibilitavam seu desenvolvimento, acima de tudo no aspecto cultural, e que respeitasse a natureza e o outro. Ele acreditava no potencial criador do jovem, e entendia que eles seriam responsáveis pela mudança que precisávamos.

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E assim como escutei deste intelectual, no lançamento do livro “A Casa Paulista”, de Thereza e Tom Maia: somos loucos, apaixonados… quem manteria uma casa no centro de uma cidade em desenvolvimento, não se rendendo às tentações do capital, simplesmente por esta casa ser um exemplar na nossa história? Eu respondo, somente os loucos, apaixonados que como eles acreditam na importância da cultura e da história.

Umas das coisas que mais percebo quando converso com os amigos do Pasin é a grande saudade que ele deixou, um vácuo na nossa cultura. Sua ausência provocou um vazio. Antes, diante de problemas sociais comuns, ele era a pessoa a quem se recorria em busca de orientação. Neste sentido vale destacar uma afirmação que o Prof. Pasin fez para o Jornal Valeparaibano em 1985: “O maior patrimônio que eu tenho feito na minha vida realmente são os meus amigos, acima inclusive dos meus amores. Porque eu tenho a consciência inclusive de que o amor é fugaz, passa, a amizade é uma forma de amor duradoura, porque é a mais autêntica que existe.”

Sabemos que uma biografia histórica ainda não seria suficiente para tratar da vida deste homem multicultural; ainda mais um breve texto. Porém, de certa forma quis deixar minha homenagem a este ícone, que foi um dos grandes motivos para escolher a faculdade que eu iria cursar. Escrevo também porque é sempre importante manter na memória este nobre, que podemos comparar aos grandes heróis por ter marcado uma geração de alunos, professores, estudiosos, curiosos. Tenho certeza que este é um nome que ainda será lembrado por muitas gerações.

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Sobre o autor:

Diego Amaro é Mestre em História Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2014), Licenciado em História pelo UNISAL – Centro Universitário Salesiano de São Paulo –(2009). Atualmente é Professor de Sociologia e de Políticas Públicas e Legislação Educacional do UNISAL Lorena (2014), Pesquisador do Portal valedoparaíba.com (2008), Assistente do CESAPER – Centro Salesiano de Pesquisas Regionais – Prof. José Luiz Pasin (2010) e Assistente da Coordenação do Curso de Licenciatura em História – UNISAL (2011)..

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As tragédias originalmente representavam dramas ou comédias gregas, um tema ligado à arte, normalmente traduzido em belos espetáculos da era antiga. Hoje, tragédias significam acontecimentos catastróficos, dolorosos e, nesses termos, tornaram-se destaque no Brasil e no mundo. Seja pelos noticiários acerca dos refugiados Sírios, dos atentados em Paris, do caso de Mariana/MG entre vários outros, a tragédia tornou-se evidente e incorporada ao cotidiano das pessoas, se naturalizou. Contudo, esses dramas que envolvem o Homem nos atingem a alma, a psique, traz-nos medos, desesperança, além de sentimentos contraditórios como a compaixão e o ódio, este melhor representado na vontade de vingança aos responsáveis pelos danos, pelo sofrimento causado naquele espetáculo, agora com significação afastada da arte e próxima da dor.

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.marilia

Um dia desses, eu passava por uma grande avenida, e ao parar em um de seus semáforos, fui abordada por um garoto de aproximadamente doze anos com um pequeno rodinho e um balde com água. A água do balde estava bastante suja e o rodinho quase não tinha a borracha, que permitia o enxugamento da superfície molhada.

Ao parar em minha janela, o garoto perguntou se poderia lavar o pára-brisa do carro.

Respondi-lhe que não, que eu tinha lavado o carro no dia anterior e além do mais, eu me encontrava sem dinheiro trocado para dar-lhe como pagamento pelo seu trabalho.

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